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Para conhecermos a nossa cultura temos que estudá-la

DIVERSIDADE, PALOPTLUE, PROCULTURA
Cultura
Exibição no dia 7 de maio de 2022, Dia da Cooperação UE e Moçambique

Quem o diz é Fernando Dava, Historiador e Investigador Sociocultural. Dava, que é também Presidente da Associação para Promoção do Desenvolvimento das Indústrias Culturais e Criativas, falava em entrevista ao Programa de Cooperação dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa e Timor-Leste com a União Europeia, também chamado de PALOP-TL/EU, à margem da feira de projetos, na Fortaleza de Maputo, no âmbito das celebrações da Semana da Europa, no dia 7 de Maio de 2022.

“O país está cheio de desafios no domínio da cultura, particularmente em relação aos instrumentos tradicionais”, disse Dava, que também foi Diretor-geral do ARPAC durante 15 anos.

“(…) Por sermos moçambicanos, normalmente dizemos que dominamos a nossa cultura, isto não é verdade (…). Preocupa-me o falso orgulho dos moçambicanos em relação ao domínio dos aspetos culturais”, sublinhou, acrescentando que o debate em torno do conhecimento real da nossa cultura é já antigo, “o debate não é meu, este é um debate antropológico dos finais do Séc. XIX e que continuou até os anos 60 e continua” até aos dias de hoje.

Nesse sentido, e consciente dos vários desafios no domínio da cultura, Dava decidiu abraçar o projeto de estudo do Xigovia, um instrumento tradicional moçambicano. Com um financiamento de 2,000 Euros do instrumento de financiamento Diversidade, do PROCULTURA, Dava liderou o estudo, que iniciou em Junho de 2021 e já terminou. Revelou que privilegiou o estudo deste instrumento pelo facto de o toque do mesmo fazer parte de uma tradição “secular, se não for milenar.”

“Nós sentimos que para além de pôr os instrumentos a tocar, tem que se colocar a falar…os instrumentos falam e esta experiência foi-nos trazida (…) por este estudo que realizamos sobre o Xigovia”, sublinhou.

A pesquisa de campo foi realizada nas províncias de Maputo, Gaza e Inhambane, sul de Moçambique. “ (…) Recolhemos, numa semana, informação muito interessante, que mostra que realmente é preciso aprofundar cada vez mais os estudos dos nossos instrumentos tradicionais”, disse.

Uma das dificuldades encontradas durante o estudo foi a falta de conhecimento sobre o uso deste instrumento. “Há cada vez um maior desinteresse das comunidades pelo seu conhecimento, sobretudo pelas gerações mais novas…”, disse. Este fator condicionou a obtenção de informações mais profundas sobre o instrumento.

Outra dificuldade teve a ver com a datação do uso dos instrumentos. “Tivemos problemas na datação do instrumento, quando é que ele começa a ser utilizado em Moçambique. Não vou aprofundar este assunto porque ele está um pouco associado à Timbila, que já tem 400 a 500 anos de conhecimento de utilização”, disse.

Dava disse ter ficado surpreendido com algumas descobertas que considerou de sucesso. ‘’Percebemos que, afinal, trata-se de um instrumento muito valioso. Quando desenhámos o projeto não tínhamos a dimensão da grandeza, a riqueza do ponto de vista sociológico, político e até do ponto de vista instrumental mesmo”, disse.

‘O som do Xigovia tocado em noites calmas, na planície, pode ser ouvido a uma distância de sete quilómetros… Isto é impressionante. Um pequeno instrumento atingir esta distância”, revelou.

 Como surgiu o Xigovia?

Durante a pesquisa foi igualmente possível apurar como surgiu a utilização deste instrumento, existindo duas versões: “Uma que refere que foram as raparigas que iniciaram nas suas brincadeiras noturnas, depois os pastores ter-se-iam apropriado para utilizarem na pastorícia”, disse.

Segundo Dava, os pastores usavam o instrumento para combater a solidão, chamamento para as refeições, para a ida e o regresso à pastorícia. “Usam também este instrumento para a ridicularização dos idosos. Não estou a elogiar este aspeto, mas é a ocorrência social”, disse Dava, acrescentando que a Xigovia é também utilizada em cerimónias de casamento e de outro tipo.

Desafiou a sociedade moçambicana a refletir sobre uma série de elementos, sejam de tradições, sejam de conhecimentos mais profundos em torno do Xigovia, e acrescentou que a sociedade moçambicana devia fazer um esforço para juntar a cultura e a educação. “Não estou a dizer para se fazer novos ministérios, mas estou a dizer para haver um acasalamento. Tudo o que aprendemos na educação é sempre produto de cultura e sempre será”, disse. O resultado deste acasalamento, segundo Dava, é o desenvolvimento.

Em termos de produtos do estudo, Dava disse que já foi produzido um vídeo que, no entanto, ainda não está acabado, e uma brochura que está completa e só falta a impressão. Sublinhou que, apesar do estudo ter terminado, “(…) A nossa ideia é produzir várias brochuras e com o andar do tempo produzir uma coletânea sobre os instrumentos tradicionais” porque “o país precisa, a sociedade precisa e o mundo precisa.”

 

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